22 de janeiro de 2015

Mais um moçambicano

Decidi postar um dos poemas de Mia Couto chamado Saudade. Quem nunca sentiu saudades e qual poeta não se alimenta dela?! Sem mais palavras, fruam desta saudade! Abraços a tod@s.

Saudade

Mia Couto

Magoa-me a saudade
do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura
dói-me a distante lembrança
do seu vestido
caindo aos nossos pés

Magoa-me a saudade 
do tempo em que eu te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas

Seja eu de novo a tua sombra, teu desejo,
tua noite sem remédio
tua virtude, tua carência
eu
que longe de ti sou fraco
eu
que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trémula, raiz exposta

Traz
de novo, meu amor, 
a transparência da água
dá ocupação a minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam meu sono.








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